Fraternidade São Pio X pode levar Igreja Católica ao cisma
A tradicionalista Fraternidade Sacerdotal São Pio X pretende ordenar seus próprios bispos em 1º de julho sem o consentimento do Vaticano, um desafio que traz o risco de um cisma na Igreja Católica.
- O que é a Fraternidade São Pio X?
Essa comunidade fundada em 1970 em Écône (Suíça) pelo bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) reúne fiéis que seguem uma interpretação estrita da tradição doutrinal e litúrgica. Ganhou grande repercussão na mídia em 1988, após ordenar ilicitamente quatro bispos, o que provocou uma excomunhão imediata.
Com 730 padres e mais de 260 seminaristas declarados atualmente, e presença em cerca de 80 países, "está bem implantada na França, Suíça e Estados Unidos" e conta com cerca de 600.000 fiéis, explica à AFP Martin Dumont, secretário-geral do Instituto de Pesquisa para o Estudo das Religiões da Universidade Sorbonne.
A Fraternidade rejeita as evoluções da Igreja desde o Concílio Vaticano II (na década de 1960) e defende um modelo de sociedade tradicionalmente patriarcal e um ideal de Estado teocrático.
É influente em alguns círculos conservadores, mas minoritária dentro da Igreja Católica e seus aproximadamente 1,3 bilhão de fiéis.
- Em que consiste o rito anterior ao Concílio Vaticano II?
Esse rito do século XVI, chamado "tridentino", caracteriza-se pelo uso do latim e por uma liturgia muito codificada e simbólica.
Nas missas, o sacerdote fica de costas para os fiéis, voltado para o altar. Também inclui orações recitadas em voz baixa, mais gestos ritualizados e, com frequência, o uso de véu ou manta pelas mulheres.
O Concílio Vaticano II (1962-1965), que modernizou a Igreja, introduziu a missa em língua vernácula e incentivou a participação dos fiéis. Para a Fraternidade São Pio X, essas reformas representam uma alteração da tradição.
- Motivo de divergência
Na quarta-feira, às 9h00, será celebrada uma "missa pontifical de consagrações episcopais" da qual os organizadores esperam a participação de milhares de fiéis.
A cerimônia vai durar várias horas e será celebrada em Ecône, no campo onde Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos há 38 anos.
Para o Vaticano, consagrar um bispo sem o consentimento do papa é um ato de insubordinação direta, que acarreta a excomunhão automática dos bispos (tanto dos consagrados quanto dos consagrantes) e constitui um "ato cismático".
Não se sabe se haverá excomunhão. "É complicado, porque coloca o papa Leão em uma situação delicada, preocupado em não agravar as coisas, em fechar as feridas (…) mas também obrigado a agir com pulso firme", destaca Dumont.
O historiador lembra ainda que a Fraternidade corre o risco de "ficar isolada de possíveis intermediários dentro da Igreja", justamente quando "começavam a construir pontes".
- Um passado conturbado
A excomunhão de 1988 foi anulada em 2009 pelo papa Bento XVI, e seu sucessor, Francisco, restabeleceu a partir de 2015 a validade das confissões e dos matrimônios celebrados por sacerdotes da Fraternidade.
Leão XIV também estendeu a mão, em outubro passado, aos tradicionalistas, ao celebrar a missa em latim na Basílica de São Pedro, em Roma.
- Por que agora?
A Fraternidade afirma que o faz por "necessidade". Atualmente, conta apenas com dois bispos em atividade, o que limita sua capacidade de garantir o crescimento.
Diz ter pedido ao papa autorização para realizar novas ordenações, sem obter resposta.
Segundo Dumont, existem divergências internas entre os fiéis mais radicais e outros partidários de um diálogo mais intenso com o Vaticano.
O Vaticano procura evitar uma ruptura. Em meados de junho, Leão XIV declarou-se "entristecido" por essa decisão.
I.Pardo--BT