Bolívia decreta estado de exceção e começa a remover barricadas
O presidente boliviano, o conservador Rodrigo Paz, decretou neste sábado (20) estado de exceção e ordenou o envio de escavadeiras para remover as barricadas dos manifestantes antigoverno que paralisam o país há mais de seis semanas.
Desde o início de maio, uma ampla coalizão de sindicatos, cultivadores de coca e indígenas iniciaram manifestações e bloqueios de rodovias.
As principais cidades do pais, em especial La Paz e sua vizinha El Alto, sofrem com uma forte escassez de alimentos, remédios e combustíveis. A economia perdeu bilhões de dólares devido a esses protestos, que o primeiro presidente não socialista em duas décadas classificou neste sábado como uma "tentativa de golpe de Estado" do "narcoterrorismo".
Paz fez um discurso na televisão estatal para advertir os manifestantes de que enfrentariam "todo o peso da lei", em uma tentativa de pôr fim aos distúrbios generalizados e à pior crise econômica da Bolívia em quatro décadas.
O estado de emergência de 90 dias restringe o direito de protestar e permite que Paz mobilize o Exército.
No início da manhã deste sábado, jornalistas da AFP na cidade de El Alto viram a polícia de choque e escavadeiras intervirem para desobstruir uma barricada de pedras, troncos e entulho.
Alguns moradores aplaudiram os esquadrões de agentes armados que chegaram em caminhonetes. Carla Butrón, comerciante de 39 anos, assistia satisfeita ao deslocamento dos agentes fardados.
"Muita felicidade, muita felicidade, muita paz como cidadã, porque todos esses quase cinquenta dias que se passaram, tudo foi cerceado aqui em El Alto, tanto o trabalho quanto a livre circulação", disse ela à AFP.
Dois blindados militares juntaram-se ao comboio policial para avançar por uma rota que conecta o sul do país ao norte do Chile e ir limpando os escombros, pedras e troncos deixados pelos manifestantes.
Em La Paz, militares vigiavam o palácio presidencial ao lado de policiais, também mobilizados em vários pontos da cidade.
- Não mais "reféns" -
"Os bolivianos não podem continuar sendo reféns de bloqueios que os impedem trabalhar, estudar, receber atendimento médico, abastecer e levar sustento para suas casas", declarou Paz mais tarde em uma publicação nas redes sociais.
"Este estado de emergência não pretende tirar a normalidade, mas sim devolvê-la", afirmou.
Os manifestantes exigem que Paz abandone as reformas econômicas liberais e renuncie.
O mandatário, de 58 anos, chegou a um acordo na noite de sexta-feira com um dos principais sindicatos do país, a Central de Trabalhadores da Bolívia, para pôr fim à crise com a promessa de não privatizar as empresas estatais e manter novas conversas.
No entanto, alguns grupos indígenas mantêm os protestos com mais de 30 bloqueios nas principais rodovias do país. O Poder Executivo espera que haja uma redução gradual dos bloqueios de estradas.
"Queremos que ele vá embora. Não queremos que seja ele quem governe", declarou recentemente à AFP Lidia Callisaya, uma líder aimará de 42 anos.
- Confronto -
Paz acusa os "narcoterroristas" de estarem por trás dos protestos e inclui entre eles o ex-presidente Evo Morales (2006-2019).
Morales, líder indígena e antigo cultivador de coca, vive há dois anos na clandestinidade, acusado de suposto tráfico de menores, acusação que ele nega.
Seu refúgio é a região do Chapare, no centro da Bolívia, onde conta com a proteção de milhares de apoiadores indígenas que, até o momento, têm impedido que a polícia o detenha.
Morales declarou recentemente à AFP que os bolivianos estavam se rebelando contra um governo conservador que é "totalmente submisso" aos Estados Unidos.
O.Gomez--BT